O Que Acontece às Pessoas Que Morrem Sem Saber Que Morreram?

 


A inquietante hipótese de Robert Monroe

Há uma ideia que atravessa praticamente todas as culturas humanas.

Quando alguém morre, sabe imediatamente que morreu.

Mas... e se isso nem sempre acontecesse?

Foi precisamente esta pergunta que levou Robert Monroe a escrever algumas das páginas mais surpreendentes da sua obra.

Durante as suas experiências fora do corpo, Monroe afirmava encontrar, ocasionalmente, pessoas que continuavam a agir como se a vida física nunca tivesse terminado. Não se viam como "espíritos". Não acreditavam estar mortas. Continuavam simplesmente a viver a rotina que conheciam, incapazes de compreender porque ninguém parecia ouvi-las ou responder-lhes.

A primeira reação é pensar:

"Como é possível alguém morrer sem perceber?"

Mas talvez a pergunta mais interessante seja outra.

Será que a consciência muda tão depressa quanto o corpo?


A força do hábito

Pensa na tua própria vida.

Quantas coisas fazes automaticamente?

Levantas-te da cama.

Preparas o café.

Pegas no telemóvel.

Conduzes para o trabalho.

Fechas a porta de casa sem sequer pensares nisso.

Grande parte da nossa existência funciona através de hábitos.

Segundo Monroe, esse automatismo não desapareceria necessariamente de um momento para o outro. Algumas consciências permaneceriam presas àquilo que sempre conheceram, repetindo gestos familiares porque ainda não tinham percebido que a realidade à sua volta mudara profundamente.

É uma imagem poderosa.

E profundamente humana.


Não é uma prisão construída por Deus

Ao contrário de muitas representações religiosas, Monroe não descreve estas pessoas como castigadas.

Não fala de condenação.

Não fala de um inferno imposto por alguém.

Fala antes de um estado de consciência.

Como alguém que acorda de um sonho e demora alguns segundos a perceber onde está.

Só que, neste caso, esses segundos podem parecer muito mais longos.

Nos seus livros, Monroe utiliza expressões como "Locked-Ins" para descrever indivíduos que permanecem fortemente identificados com a vida física, tentando continuar exatamente como antes.


O apego

Há uma palavra que surge constantemente quando lemos estas descrições.

Apego.

Apego à casa.

Ao dinheiro.

À profissão.

À família.

À identidade.

Ao corpo.

Monroe sugere que, quanto maior for a identificação exclusiva com o mundo material, mais difícil poderá ser reconhecer que a experiência mudou. Não apresenta isto como uma certeza absoluta, mas como uma hipótese baseada nos relatos que recolheu ao longo de muitos anos.

Talvez seja por isso que tantas tradições espirituais falam da importância do desapego.

Não porque os bens materiais sejam maus.

Mas porque tudo aquilo que acreditamos ser "eu" acaba, inevitavelmente, por mudar.


E se isto não falar apenas da morte?

Enquanto lia Monroe, houve uma ideia que não me saiu da cabeça.

Talvez todos nós passemos por pequenas versões desta experiência... ainda em vida.

Quantas pessoas continuam num emprego que já não faz sentido?

Quantas permanecem numa relação que terminou há muito tempo?

Quantas vivem presas a uma identidade construída há vinte anos?

Mudou o mundo.

Mudaram as circunstâncias.

Mas, por dentro, continuam a repetir a mesma história.

Como se nada tivesse acontecido.

Talvez a maior prisão não seja um lugar.

Talvez seja uma forma de olhar para a realidade.


Os "ajudantes"

Um aspeto curioso dos relatos de Monroe é que essas consciências não permaneceriam necessariamente sozinhas.

Ele descreve encontros com seres ou "helpers" cuja função seria aproximar-se dessas pessoas e ajudá-las, com delicadeza, a compreender que a vida física terminou e que existe um caminho a seguir.

Não aparecem como juízes.

Nem como salvadores.

Apenas como quem estende uma mão a alguém que acordou desorientado.


Uma reflexão

Não sabemos o que acontece depois da morte.

Ninguém pode afirmá-lo com certeza.

As experiências descritas por Robert Monroe pertencem ao domínio da investigação da consciência e da experiência subjetiva, não constituindo prova científica da existência de uma vida após a morte.

Mas talvez essa nem seja a parte mais importante.

Porque a verdadeira pergunta pode ser outra.

Estamos realmente despertos enquanto estamos vivos?

Ou também nós passamos anos a repetir hábitos, medos e crenças sem nunca questionar se continuam a fazer sentido?

Talvez o ensinamento mais profundo de Monroe não seja sobre aquilo que acontece depois da morte.

Talvez seja um convite para despertar... antes que ela chegue.


Um Grande Ate Ja.


Silvia Palma

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