OIII, ACORDA! O AMOR NÃO É UM TRATAMENTO PARA O TEU VAZIO

 



Como taróloga, posso dizer uma coisa com alguma segurança:

cerca de 98% das consultas que faço são sobre amor.

E quanto mais observo este fenómeno, mais me pergunto:

O que é que estamos realmente à procura quando procuramos desesperadamente alguém?

Será amor?

Ou será alguém que nos faça, durante algum tempo, esquecer que não estamos bem connosco próprios?

Porque talvez seja aqui que esteja o problema.

Vivemos numa sociedade cada vez mais vazia.

Primeiro disseram-nos que precisávamos de dinheiro.

Depois de sucesso.

Depois de reconhecimento.

Depois de uma vida perfeita para mostrar aos outros.

E agora parece que precisamos também de "a pessoa certa" para finalmente nos sentirmos completos.

Como se houvesse alguém algures no mundo cuja existência viesse resolver aquilo que nós não conseguimos resolver dentro de nós.

OIII. ACORDA.

Não funciona assim.

Tu não podes encontrar alguém apenas para despejar nele a tua dor.

Podes.

Claro que podes.

E provavelmente vais encontrar.

Aliás, é muito fácil.

Encontras alguém.

Apaixonas-te.

Há química.

Há mensagens até às tantas.

Há sexo.

Há planos.

Há aquela sensação maravilhosa de finalmente ter alguém.

Durante algumas semanas parece que a vida ganhou outra cor.

BOAAAA!

Finalmente estás feliz.

Finalmente alguém te escolheu.

Finalmente tens aquela sensação que andavas à procura.

Só que há um pequeno problema.

A outra pessoa também estava vazia.

E tu esqueceste-te disso.

Tu foste procurar alguém para preencher o teu buraco.

E essa pessoa foi procurar-te para preencher o dela.

Dois vazios encontram-se.

Chamam-lhe "conexão".

Às vezes até chamam "alma gémea".

E durante algum tempo resulta.

Até deixar de resultar.

Porque ninguém consegue viver eternamente a ser o penso rápido emocional de outra pessoa.

E depois começa o ciclo.

Primeiro:

Euforia.

"É diferente."

"É desta."

"Nunca senti isto."

Depois:

Expectativa.

"Porque é que não respondeu?"

"Porque está distante?"

"Será que já não sente o mesmo?"

Depois:

Ansiedade.

"Será que existe outra pessoa?"

Depois:

Desilusão.

Depois:

Dor.

Depois:

Trauma.

E finalmente:

"Tarot, ele vai voltar?"

E lá vamos nós outra vez.

Outro amor.

Outra esperança.

Outra desilusão.

Outra pessoa para tentar preencher aquilo que a anterior deixou ainda mais vazio.

E repetimos.

Não porque somos estúpidos.

Mas porque confundimos constantemente a sensação de sermos desejados com a sensação de estarmos bem.

São coisas completamente diferentes.

O amor não consegue fazer por ti aquilo que tu não consegues fazer contigo.

Uma pessoa pode amar-te profundamente.

Pode apoiar-te.

Pode trazer-te alegria.

Pode caminhar contigo.

Pode tornar a tua vida mais bonita.

Mas não pode ser responsável pela tua felicidade.

Porque, se precisares constantemente que alguém te dê aquilo que não sabes dar a ti próprio, vais acabar por transformar qualquer relação numa espécie de serviço de emergência emocional.

E quando a anestesia passa...

a dor continua lá.

Às vezes ainda maior.

Porque agora tens a tua dor original mais a desilusão daquela pessoa não ter conseguido salvar-te.

E então trocas de pessoa.

Talvez seja essa a parte mais triste.

Em vez de perguntarmos:

"Porque é que continuo a sentir este vazio?"

Perguntamos:

"Quem será a próxima pessoa que me vai fazer sentir alguma coisa?"

E lá vamos nós.

Mais uma paixão.

Mais umas semanas de prazer.

Mais mensagens.

Mais intensidade.

Mais promessas.

Mais dopamina.

E depois...

mais um mês de desilusão.

E repetimos.

Até começarmos a acreditar que temos azar no amor.

Talvez não tenhas azar.

Talvez estejas simplesmente a procurar no lugar errado aquilo que estás a tentar encontrar.

Porque se tu estás partido e procuras outro ser humano também partido...

O que achas que vai acontecer?

Não vais encontrar a cura.

Vais encontrar outra pessoa com feridas.

E duas pessoas feridas podem amar-se.

Claro que podem.

Mas amor não significa automaticamente consciência.

Não significa maturidade.

Não significa capacidade emocional.

Não significa que duas pessoas estejam preparadas para construir alguma coisa.

Às vezes duas pessoas podem sentir uma ligação brutal...

e mesmo assim fazerem um estrago brutal uma na outra.

E depois cada uma vai embora convencida de que encontrou "a pessoa errada".

Quando talvez tenham simplesmente encontrado alguém que estava tão perdido quanto elas.

Talvez seja por isso que tanta gente anda a rodar amores.

Não porque queira realmente conhecer pessoas.

Mas porque não sabe estar consigo própria.

E estar sozinho tornou-se quase uma doença.

"Estou solteiro."

"Estou sozinho."

"Preciso de alguém."

"Quero encontrar a minha pessoa."

Mas ninguém pergunta:

"Será que eu consigo estar comigo sem precisar que alguém me distraia de mim?"

Essa é que é a pergunta difícil.

Porque ficar sozinho obriga-te a ouvir aquilo que o relacionamento estava a abafar.

E talvez descubras que o problema não era não teres ninguém.

Era não te teres a ti.


Por isso, não te estou a dizer para não procurares o amor.

Procura-o.

Vive-o.

Apaixona-te.

Entrega-te.

Mas não transformes outra pessoa numa responsabilidade que ela nunca pediu para ter:

a responsabilidade de te fazer feliz.

Porque se fores vazio à procura de alguém para te preencher, podes até encontrar essa pessoa.

Mas quando a novidade acabar, quando as mensagens diminuírem, quando aparecerem os primeiros problemas e quando aquela euforia deixar de existir...

vais voltar a encontrar-te.

E vais continuar lá.

Com o mesmo vazio.

Só que agora acompanhado de mais uma desilusão.

Por isso...

OIII. ACORDA.

Antes de procurares a próxima pessoa que te faça sentir vivo,

talvez esteja na altura de descobrires porque é que precisas tanto de alguém para te sentires vivo.

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