Quando aquilo que te prende também pode ensinar-te a ser livre
Há batalhas que ninguém vê.
A pessoa que sorri enquanto luta contra uma dependência.
A pessoa que diz "está tudo bem" enquanto tenta controlar um medo.
A pessoa que sabe que determinado comportamento lhe faz mal, mas continua a voltar ao mesmo lugar.
E há uma parte especialmente difícil:
👉👉saber que somos nós próprios que temos de enfrentar aquilo que nos prende.
Pode ser uma dependência.
Pode ser uma pessoa.
Pode ser uma relação.
Pode ser um medo.
Pode ser uma compulsão.
Pode ser uma necessidade constante de aprovação.
Pode ser qualquer coisa que, aos poucos, começa a ter mais poder sobre nós do que gostaríamos de admitir.
E talvez seja por isso que algumas das nossas maiores aprendizagens não acontecem quando tudo está bem.
Acontecem quando somos obrigados a olhar para o nosso lado mais desconfortável.
Para aquilo que preferíamos esconder.
Para aquilo que fingimos não ver.
Para o nosso lado negro.
Não para o destruir. Para o compreender.
Porque aquilo que escondemos dentro de nós não desaparece só porque não olhamos para ele.
Às vezes cresce no silêncio.
👉👉Há pessoas que passam uma vida inteira a fugir de si próprias
Tentamos controlar.
Tentamos esquecer.
Tentamos substituir uma coisa por outra.
Prometemos que é a última vez.
Começamos de novo.
Caímos.
Levantamo-nos.
E voltamos a cair.
Até que percebemos que talvez a questão não seja apenas:
"Como é que me livro disto?"
Mas também:
"O que é que isto está a tentar mostrar-me sobre mim?"
Esta pergunta não desculpa uma dependência.
Não transforma sofrimento em algo bonito.
E não significa que alguém deva enfrentar sozinho uma situação que exige ajuda.
Pelo contrário.
Reconhecer que precisamos de ajuda pode ser precisamente o primeiro acto de coragem.
Mas existe uma diferença entre fugir da nossa sombra e começar a conhecê-la.
E se esta aprendizagem for mais antiga do que pensamos?
Para quem acredita na reencarnação, algumas dificuldades podem ser vistas como aprendizagens que atravessam mais do que uma existência.
A ideia aparece de formas diferentes em várias tradições espirituais.
No pensamento espírita de Allan Kardec, a reencarnação está ligada ao progresso e às experiências necessárias ao desenvolvimento do Espírito.
Nos trabalhos de Michael Newton, baseados nos relatos obtidos através da hipnose regressiva, surge também a ideia de uma continuidade da aprendizagem entre diferentes encarnações.
E autores como Brian Weiss popularizaram, no mundo contemporâneo, o tema das vidas passadas e da possibilidade de determinadas experiências serem compreendidas dentro de uma história mais longa da consciência.
São perspetivas espirituais e não explicações científicas comprovadas.
Mas, para quem acredita nesta visão, existe uma pergunta fascinante:
E se algumas das nossas maiores dificuldades forem também oportunidades de aprendizagem que a alma escolheu enfrentar?
Talvez não para sermos castigados.
Mas para aprendermos.
Podemos passar encarnações a aprender a mesma lição
Imagina uma pessoa que precisa constantemente de controlar tudo.
Noutra vida, segundo esta perspetiva, poderá ter vivido experiências que reforçaram esse padrão.
Nesta vida encontra novamente situações que lhe exigem confiança.
Perde o controlo.
Tem medo.
Resiste.
Até perceber que não pode controlar tudo.
Outro exemplo:
alguém que procura constantemente validação.
Precisa que lhe digam que é suficiente.
Que é amado.
Que está a fazer bem.
Que tomou a decisão certa.
E talvez uma das suas grandes aprendizagens seja precisamente descobrir:
"Eu consigo reconhecer o meu próprio valor sem precisar que alguém o confirme o tempo inteiro."
A aprendizagem pode repetir-se de muitas maneiras.
Até que alguma coisa dentro de nós muda.
E quando finalmente conseguimos?
Há uma sensação quase indescritível.
Quando conseguimos ultrapassar algo que durante anos pensámos que nos dominava, recuperamos uma parte de nós.
A confiança cresce.
A autoestima muda.
Começamos a olhar para nós de outra maneira.
Pensamos:
"Se consegui ultrapassar isto, talvez consiga ultrapassar outras coisas também."
E isso é poderoso.
Mas existe aqui uma armadilha.
Depois de vencer uma batalha, também podemos tornar-nos vulneráveis.
Podemos sentir-nos tão fortes que acreditamos que nada mais nos pode derrubar.
Começamos a testar os nossos próprios limites.
Achamos que já estamos curados.
Que já não precisamos de cuidado.
Que podemos aproximar-nos novamente daquilo que nos fez mal porque "agora controlamos".
E, às vezes, é precisamente aí que voltamos a cair.
Por outro lado, podemos passar pelo extremo contrário.
Depois de uma queda, sentimo-nos tão frágeis que começamos a acreditar que nunca vamos conseguir.
Nem invencíveis.
Nem derrotados.
Precisamos de equilíbrio.
A verdadeira força talvez seja saber que ainda somos vulneráveis
Ser forte não significa nunca mais ter medo.
Não significa nunca mais sentir vontade de voltar atrás.
Não significa nunca mais cair.
Significa reconhecer aquilo que nos pode fragilizar e não fingir que somos imunes.
É poder dizer:
"Eu já atravessei isto. Mas continuo a precisar de cuidar de mim."
Talvez isso seja muito mais força do que dizer:
"Isto já não me afecta."
Porque a humildade protege-nos onde o excesso de confiança pode colocar-nos novamente em perigo.
👉👉O nosso lado negro não precisa de ser o nosso inimigo
Todos temos partes de nós que preferíamos não mostrar.
Raiva.
Inveja.
Medo.
Dependência.
Necessidade.
Ciúme.
Controlo.
Vergonha.
Fragilidade.
O problema começa quando acreditamos que reconhecer estas partes significa ser uma pessoa má.
Não.
Significa ser humano.
O trabalho está em não permitir que essas partes conduzam a nossa vida.
Podemos olhar para elas.
Perceber de onde vêm.
Procurar ajuda quando precisamos.
Aprender novas formas de responder.
E, pouco a pouco, deixar de ser escravos daquilo que antes nos dominava.
Talvez a liberdade não seja nunca mais cair
Talvez seja perceber mais depressa quando estamos a caminhar novamente para o mesmo lugar.
Talvez seja ter coragem para pedir ajuda.
Talvez seja saber dizer não.
Talvez seja afastarmo-nos.
Talvez seja aceitar que algumas coisas nunca poderemos controlar completamente.
E talvez seja também perceber que uma batalha ultrapassada não nos torna superiores a ninguém.
Torna-nos apenas mais conscientes de nós próprios.
Porque todos temos alguma coisa que nos prende.
Uns mostram.
Outros escondem muito bem.
👉👉 E se a tua maior fraqueza estiver a ensinar-te uma das tuas maiores forças?
Não precisas de romantizar aquilo que te dói.
Não precisas de acreditar que tudo acontece por uma razão.
E não precisas de enfrentar tudo sozinho.
Mas podes começar por olhar para ti com honestidade.
Sem julgamento.
Sem vergonha.
Sem fingir.
E perguntar:
"O que é que eu ainda preciso de aprender para ser verdadeiramente livre?"
Talvez a resposta não apareça hoje.
Talvez leve tempo.
Talvez seja uma aprendizagem desta vida.
Talvez, para quem acredita na reencarnação, seja uma história muito mais antiga.
Mas há uma coisa que podemos fazer agora:
começar.
Porque aquilo que hoje parece ser a tua maior prisão pode, um dia, tornar-se a prova de que conseguiste libertar-te.
🌙 E talvez seja aí que começa a verdadeira transformação.

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